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Vestibular em

Educação: quantidade ou qualidade?

Para pensar a educação no contexto da cultura


Um sujeito mudou-se do noroeste do Estado do Paraná para o interior de São Paulo a procura de um bom trabalho. Ele tinha experiência como pintor de edificações.

Logo que chegou ao Estado, arrumou um emprego em uma loja de tintas e ali ganhou a confiança dos proprietários, especialmente do gerente, que o designou para pintar a recém-construída residência de um de seus filhos.

O serviço de pintura a ser realizado não era convencional, todos os cômodos deveriam ser pintados de cores diferentes. Para esse tipo de trabalho, o pintor tinha uma metodologia particular: diferente da maioria dos profissionais do seu ramo de atividade, ele registrava as especificações das cores em fichas, criando uma documentação em que mapeava a rigorosa determinação de cores e tonalidades para cada ambiente. Essa prática chamou a atenção do arquiteto, que passou a atribuir ao pintor todos os projetos sob sua responsabilidade.

Não demorou muito, deixou de ser comerciário e passou a trabalhar como autônomo. Assim, vários amigos e parentes vieram para trabalhar na sua empresa recém-criada.

A narrativa não tem o objetivo de contar a história de progresso de um cidadão brasileiro, nem pretende demonstrar como uma pessoa determinada consegue, com seu suor e esforço individuais, atingir uma posição digna na sociedade capitalista.

A história contada nos parágrafos anteriores ilustra uma situação pouco comum no Brasil e, por ser excepcional, ganha notoriedade. Ela denuncia a dificuldade de encontrarmos profissionais que façam o uso social da leitura e da escrita. Isso porque a má qualidade de trabalho, no ramo de atividades em que a exigência de formação profissional é praticamente inexistente, expõe as condições sociais, econômicas e culturais de parte significativa da população brasileira.

Os resultados de uma recente pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais demonstram a baixa escolaridade dos empregados na área da construção civil. Consultando a mão-de-obra empregada por 20 construtoras de Belo Horizonte, 44% dos contratados estudaram apenas até a 4ª série do ensino fundamental.

Inúmeros meios de comunicação têm apontado certo consenso de que "a educação é considerada a política pública mais importante para o desenvolvimento da nação". Há diversos governos empregando um discurso de que a educação é "o foco central do projeto político...".

Entretanto, a tônica das políticas públicas dessas últimas décadas, tanto no âmbito estadual como no federal, tem sido a da "quantidade sem qualidade".

Assim, em meados de junho, expressivas lideranças empresariais brasileiras, representantes de ONGs (Organização Não-Governamental), acadêmicos e políticos, se encontraram para discutir nossos sistemas de educação com o intuito de contribuir para a melhoria da qualidade dos "serviços disponíveis".

Contudo, gostaríamos de apontar que a educação pública não terá sua melhoria na qualidade se permanecer como pauta de políticas que a tratam como mais uma mercadoria ou apenas como dado estatístico.

O campo de ações da educação é realizado por pessoas que estabelecem determinada natureza de interação que é impregnada de sentido, um tipo de contato humano marcado pela cultura. Isto é, uma interação criativa que expressa todo o conhecimento social num sentido ampliado. Esse conhecimento social envolve o trabalho com construção de diferentes significados, mudança de crenças e valores.

Por esse motivo, haverá mudança na educação quando houver responsabilidade social efetiva. Uma responsabilidade consubstanciada em compromisso deve ser assumida por toda a sociedade, sobretudo pelos profissionais da educação, sem que tal atitude represente, de alguma forma, uma desmobilização do papel do Estado.

A história do pintor, como parte de todo esse processo, nos remete ao saudoso Sérgio Buarque de Holanda quando, em Raízes do Brasil, de 1936, aponta que as atividades profissionais são, em nosso país, "o oposto do que sucede entre outros povos", mais acidente que outra coisa na vida dos indivíduos. Pensando a educação como cultura, poderemos mudar isso. Vamos assumir esse compromisso social?

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 Por:  João Pedro Pezzato (Geógrafo mestre e doutor em Eucação pela Unincor e Unesp) e Leila Maria Pezzatto (arquiteta e urbanista).

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