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Educação Emocional

É fundamental ser capaz de saber identificar as próprias emoções, para entendê-las, para só, então, poder entender as dos outros.
 
Hoje em dia sabemos que, desde pequenas, as crianças são capazes de sentir todas as emoções de um adulto, só que elas ainda não sabem como percebê-las, rotulá-las, compreendê-las, nem regulá-las. Tudo isto precisa ser aprendido.
 
Por muito tempo, as emoções, nas escolas, ficaram da soleira da porta, para o lado de fora. O conceito de inteligência emocional ainda não existia e, como as questões emocionais também não eram, normalmente, abordadas na educação doméstica, as pessoas tinham que aprender a lidar com as suas emoções como podiam, ou não podiam. Assim, na falta de uma educação emocional explícita, elas lutavam na escuridão, contra si mesmas, como dizem Berrocal e Ramos (2001), produzindo geração após geração de "analfabetos emocionais", a minha inclusive.
 
Durante vários séculos, a idéia prevalente era que somos humanos porque pensamos, não porque sentimos. Esta noção ganhou notoriedade, sobretudo a partir do século XVII, quando René Descartes publicou, em 1637, seu livro Discours de la Méthode. Nesta obra, o matemático e filósofo francês afirmava "Puisque je doute, je pense; puisque je pense, j`existe" e, em outro momento, "je pense, donc je suis", frase que, quando a obra foi traduzida, posteriormente, para o latim, deu origem ao famoso axioma "cogito ergo sum" (penso, logo existo).
 
Ser inteligente, na sociedade ocidental, desde então, passou a ser considerado uma propriedade da razão, como, por exemplo, se distinguir no domínio das línguas clássicas, do raciocínio matemático, das ciências ou da filosofia. A partir das contribuições de Alfred Binet, já no século passado, iniciou-se um intenso esforço para medir esta suposta faculdade unidimensional, por meio de uma pontuação em testes de capacidade cognitiva, como os de QI. (Veja artigo "Intelgiências Múltiplas")
 
Contudo, tais noções começaram a ruir, pouco antes do início do século XXI, pois se tornou, cada vez, mais óbvio que a inteligência acadêmica não era suficiente, nem para garantir êxito na vida profissional, nem a felicidade na vida cotidiana. Impelidos por estas constatações, os teóricos começaram a considerar outros ideais e modelos de pessoa, diferentes do puramente racionalista, até então dominante na ciência e nas sociedades pós-cartesianas (Pacheco e Berrocal, 2001).
 
Os dois temas sobre os quais pretendo debruçar-me, nesta breve reflexão, são como se aprende a regular as emoções e qual é o papel da escola nesta aprendizagem. De início, é necessário esclarecer o que se entende por regular. Embora seja comum pensar que a regulação das experiências emocionais diga respeito, somente, à atenuação de emoções ditas negativas, o termo também se refere às emoções positivas, tanto no que tange a atenuá-las, quanto intensificá-las. Em se tratando do fenômeno emocional, a palavra regulação é utilizada em psicologia para designar os diversos processos, cuja função é de modificar, em algum sentido, seja atenuando, intensificando ou transformando, tanto a experiência interior subjetiva, quanto a expressão de qualquer tipo de emoção (Etxebarria, 2001)
 
Ora, para poder aprender a regular suas próprias emoções, é necessário, antes, que a criança aprenda os passos precursores essenciais de perceber, identificar, rotular e compreender seus eventos emocionais. A capacidade de perceber é inata, mas precisa ser amadurecida. As de identificar, rotular e compreender, ao contrário, são organizadas, pouco a pouco, na interação social. Não sendo, portanto, naturais, precisam ser aprendidas. E, diga-se de passagem, trata-se de um aprendizado que leva muitos anos para se processar.
 
O que permite o desenvolvimento de uma consciência emocional é o exercício continuado de tentar descrever as emoções sentidas, expressando-as por meio de palavras e do uso de etiquetas ou rótulos verbais precisos. É fundamental ser capaz de saber identificar as próprias emoções, para entendê-las, para só, então, poder entender as dos outros. Somente quando se consegue avaliar com exatidão o que os outros sentem, pode-se reagir de forma solidária. Daí se conclui, portanto, que não há como pretender ensinar solidariedade, sem antes educar emocionalmente.
 
Quando as crianças não desenvolvem na infância estas habilidades e competências sócio-emocionais, podem se tornar adultos insensíveis e indiferentes à dor e ao sofrimento alheios, inclusive quando estes são causados por si mesmo. Por isso, a educação emocional e a educação de valores são importantes, desde a infância, para promover o desenvolvimento de uma personalidade socialmente equilibrada.
 
Da mesma forma que valores e atitudes são aprendidos em situações concretas e não teoricamente, assim também é com a regulação eficaz das próprias emoções. Grande parte deste aprendizado ocorre conscientemente, ou inconscientemente, por imitação dos adultos. Um sério problema, contudo, é que a expressão da raiva é, muitas vezes, a única modalidade de emoção que as crianças percebem os adultos à sua volta expressarem. Pior ainda, é quando esta é expressa em conflitos irreflexivos e, às vezes, até violento. E o que dizer dos modelos que são bombardeados continuamente pela mídia?
 
Reações emocionais inteligentes precisam ser aprendidas com auxílio de outros e pela prática e exercício continuados, não somente por preceito e instrução verbal. As crianças precisam de modelos, exemplos e de intervenções pedagógicas para aprenderem a lidar com suas próprias emoções. Isto deve ser feito não só em casa, como na escola também. Como educadores, devemos atentar para as situações que favorecem este aprendizado e não deixá-las passar em branco, por que são imprevisíveis. A educação emocional é um desafio da escola no século XXI.
 
_________________________________________________________
 Por: Paulo Périssé (Educare / maio de 2007)

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